QUEM DECIDE O QUE É MODA E O QUE NÃO É?


Você realmente sabe como as tendências da moda são feitas? Por que o verde é a cor quente do momento e logo depois o vermelho é o novo “must have” da estação? Quem decide isso? Existe um deus da moda? Um illuminati da moda? Fico imaginando reuniões secretas atrás de portas fechadas e rituais profanos que envolvem longos vestidos decotados pretos Versace e sangue dentro de sapatos Louis Vuitton.

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OK, cada indústria tem suas tendências, mas diferentes das outras, a indústria da moda vive num constante “revival”, sempre voltando ao passado e reeditando antigas tendências e tentando revendê-las como a “última moda”.

A tecnologia avança e todos querem o mais recente smartphone, tablet e demais dispositivos cada vez menores e mais sofisticados, mas a moda praticamente sempre recicla os estilos dos anos 50,60,70 e 80 a cada poucos anos e se você usar a mesma roupa por 20 anos, você provavelmente poderia estar “na moda” novamente.

As artes plásticas (na qual os estilistas sempre querem se comparar) já não seguem “tendências artísticas” há muito tempo, pois hoje cada artista faz o que quer sem precisar ficar preso a estilos, cores e formas como era no passado. Por que então a indústria da moda segue tendências e quem as faz exatamente? Quem decide se as mini-saias estão dentro ou fora? Acontece que há uma série de fatores e opiniões contrastantes sobre quem é o maior influenciador sobre o que é moda e o que não é. Quais seriam elas?

CELBRIDADES 

A primeira coisa em que pensei foram as celebridades, pois as pessoas estão sempre obcecadas com elas e seu endosso é procurado por todas as principais marcas. Abra qualquer revista e você será presenteado com páginas e páginas de quem está vestindo o que e como, o que acaba influenciando muitas pessoas. Assim, estariam as celebridades por trás das tendências da moda? Bem, certamente as celebridades são uma influência fundamental no crescimento e popularidade de uma tendência, mas isso ainda não explica onde a tendência se originou.

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A maioria das celebridades trabalham com personal stylist que na verdade recebem as roupas e  influências de outros estilistas e assim por diante. As celebridades não são os definidores de tendências, embora elas geralmente estão usando a última tendência em roupas e acessórios “mais quentes da temporada”. Você pode dizer que as celebridades usam certo tipo de moda antes dela chegar as ruas para as massas, mas há uma explicação simples para isso: Dinheiro.

QUEM DECIDE O QUE É MODA 

 

As semanas de moda de Nova York, Paris, Londres e Milão terminam e na próxima semana as celebridades já estará vestidas com a última moda e aparecem nas revistas, mas a razão principal é que elas podem se dar ao luxo de fazer isso. Elas podem receber das grandes marcas as peças vistas nas passarelas uma semana antes. Demora de 2 a 3 meses para que as marcas de varejo ou atacado populares possam produzir versões mais baratas dessas roupas, e é por isso que a moda é lançada com 6 meses de antecedência e nós vemos as tendências bem depois nas ruas.

Assim, se não são as celebridades que criam as tendências seriam os estilistas de moda?

ESTILISTAS E GRIFES DE MODA

Parece ser esta a resposta óbvia. Nas semanas de moda que mencionei acima, fotógrafos e editores de revistas do mundo todo correm para ver as últimas tendências que estarão nas passarelas dos principais designers.

 

Todo mundo vêm ver as “tendências”, ou seja, elas já foram decididas. Se vermelho carmim é a cor para o inverno, você pode apostar que a maioria dos estilistas das marcas de moda terão suas versões dessa cor em seu desfile. Sim, existem exceções, mas em geral, é claro que quando os estilistas estão desenvolvendo suas coleções, eles já sabem o que vai rolar na temporada. Se não o fizessem, em seguida, cada desfile seria completamente diferente e efetivamente não haveria tendências, ou haveria tantas que o seu impacto seria diluído.

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Então, os estilistas conduzem as tendências, passando-a das passarelas para as celebridades, que depois de um tempo vão ser usadas pelos consumidores, mas parece que eles não são os autores. Então nos resta os...

FATORES SOCIAIS E ECONÔMICOS

Isso é algo interessante e que faz muito sentido. Se você olhar para as tendências da moda ao longo dos últimos 10 anos tem havido um retorno definitivo ao glamour, que coincide contra um fundo de melancolia política e econômica (guerras, terrorismo, a crise econômica e recessão). Isto poderia ser interpretado como escapismo, da mesma forma que os filmes de fantasia têm sido tão populares na última década (Harry Potter, Crepúsculo etc) pois as pessoas querem se vestir para esquecer a desgraça em torno delas. É um pouco como enfiar a cabeça na areia.

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Compare isso com os anos 90, quando tudo estava indo bem (em comparação). Estilo grunge, logotipos e sportswear, minimalismo, coturnos, look total jeans e xadrezes. Voltando ainda mais para os anos 60, temos as mini-saias e flower power para rebelar-se contra o sistema, a Guerra do Vietnã e do nascimento de liberação sexual. O anos 80 foram o ponto alto da música mas na moda foi a década perdida com sua moda esquisita com ombreiras exageradas, muita maquiagem colorida e coisas postiças, cabelos desgrenhados e volumosos com laquê, roupas largas no corpo, muito paetê e franjas por todo lado.

Certamente parece que o mundo tem uma influência sobre onde a moda vai passar, mas nós ainda não chegamos à raiz de quem define as tendências na moda.

A MÍDIA

Como sabemos, as celebridades são um dos principais fatores para o crescimento das tendências, mas são as revistas, sites de moda e programas de TV que lhes dão as plataformas para fazê-lo.

Enquanto as vendas de revistas impressas estão despencando, elas ainda têm um enorme alcance e não há dúvida de que as revistas em papel com capa brilhante são uma influência fundamental no desenvolvimento das tendências. Afinal, se os editores não optarem por mostrar as tendências, então elas nunca vão alcançar a massa crítica necessária.

A queda das vendas na mídia impressa é compensada com o enorme crescimento e alcance da internet onde as revistas de moda chegam a um público mais amplo do que nunca em seus formatos online. Então, por que os editores escolhem mostrar as tendências de moda? A resposta é …

DINHEIRO

A mídia é totalmente dependente de publicidade e os grandes anunciantes são exatamente as grandes marcas onde nós gostamos de fazer compras. Moda é um grande negócio e no final das contas tudo se resume a dinheiro.

Então, por que as tendências mudam a cada temporada? Bem, se você entrasse na Zara e tudo estivesse parecido com os meses anteriores, então você não teria nenhuma razão para comprar um vestido novo ou um novo casaco. Novas tendências são introduzidas para nos incentivar a mudar constantemente o guarda-roupa e continuar a gastar para manter obviamente o lucro dessas empresas e sustentar as tais celebridades.

Todos os grandes varejistas têm equipes dedicadas na previsão de moda e a cada temporada, eles colocam investigadores à procura de ideias de tendência na rua, estudam a fundo político e econômico e vasculham o que não tem sido utilizado por alguns anos e está maduro para um “retorno triunfal”. Mas existem outros fatores que impulsionam a moda que é a…………

INDÚSTRIA TÊXTIL E A PANTONE

Os grandes nomes da moda estão todos associados com um ponto de vista forte e um estilo distinto: pense Ralph Lauren, Tommy Hilfiger e Donna Karan. Mas quem surge com as tendências de cores que são evidentes nas passarelas? As pessoas que trabalham com moda dizem que as tendências raramente são decididas pelos indivíduos. Em vez disso, elas são decididas por um comitê de 10 pessoas influentes cujos nomes são um segredo. Eles se encontram na Europa duas vezes por ano, maio e novembro, a convite da Pantone, uma empresa americana cujo único negócio é a cor.

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Na verdade, a Pantone controla cerca de metade de todas as peças vendidas nos EUA, de acordo com a NPD, um grupo de pesquisa de mercado. A Pantone tem vários concorrentes no mercado, mas em relação aos padrões de cores, a empresa não tem rivais. Há 1.925 cores no índice de cores têxteis da Pantone, cada um com um número de identificação único que é usado nas áreas de moda, design e decoração de interiores no mundo todo.

Mas aqui está uma pergunta que mostra o que a moda é: Por que qualquer estilista tem de prestar atenção ao que a Pantone diz? Segundo John Crocco, o diretor criativo da marca de moda Perry Ellis, as previsões de cor são na verdade “uma profecia auto-realizável.” Ele diz que se os designers optam por seguir essas previsões, então eles vão ser “parte do que acaba se tornando a tendência.” Mas se os designers ignoram a tendência, correm o risco de irrelevância, e isso é a pior coisa imaginável para qualquer empresário de moda.

Tendência nada mais é que uma disposição natural e instintiva, uma força que determina o movimento de um objeto. O objeto, neste caso, é a moda. E a força que determina onde ela vai parar é o caminho que a sociedade faz ou deveria fazer. Os pesquisadores analisam o passado e o presente para saber que caminhos a sociedade tende a seguir. Sobre essa projeção surgem as matérias-primas: cores, tecidos, texturas. E a partir das matérias-primas cada estilista faz suas coleções, por isso muitas vezes, surgem similaridades nos desfiles. Todos bebem de uma só fonte.

É a partir dessas tendências sociais que as cartelas de cores e tecidos são criadas. Poucos sabem, mas a moda começa mesmo não é na passarela e sim na indústria têxtil que dá as direções do sistema da moda. Talvez esta tenha sido a única coisa que ainda não mudou (e nem deve mudar) sobre como a moda começa e termina. A escolha de cada cor, cada estampa e cada textura que vai dar forma às coleções dos estilistas depende do que o mercado têxtil pode oferecer em termos de matéria e cartela de cor. Mas já se questionaram sobre quem decide tais coisas? A resposta é simples……….

VOCÊ

Enquanto as tecelagens, Pantone, estilistas, celebridades e a mídia podem ter a maior influência em semear o que vai ser tendência ou não, é o consumidor quem dá a palavra final. Em última análise, você é o árbitro para julgar se uma tendência parece ótimo ou não, e para cada tendência de sucesso a cada ano, haverá dezenas que já dissemos coletivamente “obrigado mas isso nem pensar”. O consumidor na verdade é o único “rei do mercado” mas ele se esquece disso. Se o consumidor rejeita um produto ou marca ela vai ser retirada do mercado ou vai falir pois não existe outra alternativa.

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As empresas vão analisar cuidadosamente os números de vendas e procurar o que está se saindo melhor, ou seja, um aumento de 10% na venda de saltos altos cor de rosa ou uma mini-saia de oncinha no mês passado, por isso, o desenvolvimento precoce das tendência é influenciada por você consumidor. As empresas lançam e esperam que você compre as propostas deles, se não aceitar, adeus tendência pois ninguém vai ficar investindo dinheiro em algo que os consumidores não gostaram, a não ser que seja louco.

A mídia social é também uma ferramenta de enorme poder do consumidor e o feedback instantâneo feito no facebook, twitter, comentários de blogs, etc,  dizem aos varejistas quais tendências devem investir.

Além disso, as tendências ainda podem começar na rua e o jeans skinny é um exemplo clássico. Esta tendência foi exposta pela primeira vez em 2003 pelo chefe de previsão de tendências da Cotton Inc em uma viagem para Estocolmo, onde ele tinha visto adolescentes usando seus jeans enrolados alguns centímetros para torná-los mais apertados em torno das pernas. Ele tirou fotos e voltou para a sede da empresa e até 2006, o jeans skinny reinou absoluto nas lojas.

Então, aí temos o resultado. As idéias das tendências de moda são implementadas pelas tecelagens e empresas químicas que desenvolvem as cores, que são organizados pelos estúdios de design, que depois são passados para os estilistas, que apresentam suas coleções nas passarelas, que depois são usadas pelas celebridades, que depois são fotografadas pelos meios de comunicação, que depois surgem nas lojas de varejo e, finalmente, é usado por você!

Este processo é repetido a cada 6 meses, mas é o consumidor quem decide se todo esse esforço feito pela indústria da moda vale a pena ou não, cabe a você a última palavra pois sem consumidores dispostos a comprar não existe indústria em primeiro lugar.

Segundo Paulo Borges idealizador do São Paulo Fashion Week, “o fast fashion é um vírus que infectou a indústria da moda“ e o fast fashion só existe porque os consumidores compram seus produtos baratos feitos com materiais de qualidade inferior, que utilizam produtos químicos perigosos na sua fabricação que são despejados sem tratamento na água, ar e terra, e que são fabricados explorando muitas vezes mão de obra barata de mulheres e crianças pobres em países de terceiro mundo. Não adianta ficar reclamando dos problemas causados por essas grandes empresas se o consumidor as apóia comprando seus produtos não é mesmo? lembre-se sempre: Você é quem manda afinal no comércio e isso serve para todo tipo de indústria.

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Créditos da matéria: Textile Industry