O TEAR VOLTA À TONA TANTO NA MODA QUANTO NA DECORAÇÃO


Com estampas mais modernas, arte milenar inspira as roupas e o mobiliário.

Imagem 1: peças da Fouta Heritage são feitas com design brasileiro em fábricas da Tunísia e Turquia.

O movimento do tear é simples: fios verticais, as teias, se cruzam com horizontais, a trama. E esse entrelaçar puro e certeiro é capaz de fazer superfícies lindas, que são levadas tanto para a moda quanto para a decoração.

A história da marca Fouta Heritage, da designer de interiores Mellina Makowiecky, começou com um encantamento pessoal pelas toalhas foutas. Ela, que morava na Itália e visitava frequentemente a Tunísia em suas férias, sempre voltava com os seus paninhos feitos em teares, no caso, uns da década de 30. Até que, em 2013, junto com a mãe, decidiu encomendar mil para trazer ao Brasil. Quando o pedido chegou, o boca a boca deu conta de vender o estoque rapidinho.

— Foi tudo sem propaganda e espalhamos pelo Brasil inteiro. Achamos até um pouco surpreendente a aceitação — lembra ela, que hoje encomenda também em fábricas turcas e pretende conhecer as tecelagens do Marrocos. — É uma cultura da costa do Mediterrâneo, cada uma tem a sua peculiaridade, às vezes um pequeno detalhe, nenhuma é igual a outra.

Em seguida, Mellina passou a ir para as fábricas criar novos padrões. Ela mudou os desenhos, as cores e deu uma cara mais moderna.

— As peças produzidas por eles eram as mais tradicionais, como aquelas que são encontradas no Grand Bazaar, em Istambul. Eu fiz modelos com uma estética mais contemporânea, mas ao mesmo tempo que não seguem modismos. São todos atemporais e em tamanho único — conta Mellina, que vai duas vezes por ano às fábricas de tecelagem e, em uma dessas, fez uma trama pied de poule que virou um hit da sua marca. — Da criação da peça-piloto até chegar ao Brasil, são uns seis meses. São várias fases: tingir, tecer, fazer as franjas e finalizar. Para chegar aqui, ainda tem a viagem de navio.

Imagem 2: Cadeira Luíza, de Aristeu Pires.

Nas coleções de inverno, as peças são mais densas, quentes e com cores sóbrias. No verão, levinhas e coloridas. Em comum, todas são feitas em tecido de algodão ou de bambu.

— Acredito que uma pessoa entende o potencial versátil de uma fouta quando a usa como toalha de praia ou canga, no calor; como cachecol, no frio; e no sofá, como decoração, nos intervalos — ensina Mellina, que vende tanto em multimarcas, como no Gabinete Duilio Sartori, como pelo site www.foutaheritage.com.

Na LZ Studio, o tear aparece em estampas modernas, que foram desenhadas pela equipe da loja e produzidas na Índia. São padrões geométricos, florais, listras e mais uma seleção de formas que colorem com charme e aconchego os ambientes.

A artista plástica e estilista Maíra Nascimento estava fazendo a pesquisa para a Coleção 18, da Maria Filó, que é super em cima das tramas artesanais, quando ficou muito curiosa sobre a prática de tear e se inscreveu em um curso. Apaixonou-se. Encomendou um tear de mesa, mas antes dele chegar, já construiu um manual, com preguinhos, que virou a sua obsessão. São horas e horas a fio criando texturas e misturando cores.

— Assisti a vídeos de índios fazendo tear e vi que não seria necessária uma mesa. Comecei a fazer o manual e pirei. Ele dá mais liberdade para criar as tramas — conta Maíra, que fez algumas peças para prender na parede que estão expostas na loja da Maria Filó do VillageMall e ainda abre uma exposição em Belo Horizonte este mês. — Prendo em um galho pintado de dourado, fica como uma tapeçaria em forma de estandarte.

Imagem 3: Tear de parede feito para a Maria Filó inspirado na nova coleção

Para levar o tear à moda, ela aplicou recortes nas peças de desfile que foram apresentadas este ano e, para a loja, as roupas ganharam versão de crochê feita a partir de peças de tear. Em paralelo, Maíra segue tramando em seu novo vício e os estandartes podem ser vistos e encomendados em seu perfil do Instagram @manascimentofibers.

O tear também inspira o mobiliário. O designer baiano Aristeu Pires é um dos que cria peças com esta estética. Ele usou as resistentes cordas náuticas para fazer tanto o assento quanto o encosto da cadeira Luíza, que ficou parecida com uma máquina de tear.

— Acredito que o tear esteja sempre no meu subconsciente. Por isso a semelhança. A madeira e a tecelagem têm enorme importância na história universal do artesanato, estão em toda a história, de todas as civilizações — comenta Aristeu.

Uma trama com mil possibilidades.

Fonte:  "oglobo" e "Industria Textil"