
Moda e Filosofia em 4 grandes questões para entender a força do espírito do tempo (Zeitgeist) da Moda
Em entrevista especial para o Fashion Bubbles, o escritor e pesquisador em filosofia, Brunno Almeida Maia, apresenta de forma didática, quatro grandes questões da Moda: Filosofia, Imagem e Narrativa, o arqueólogo e o cartográfico e como tudo isso interfere em sua realidade com muitos exemplos.
Reflexões profundas demonstram a importância de se desenvolver um “Pensamento da Moda” com base filosófica, tanto para compreensão desse fenômeno central da sociedade contemporânea, como para formação de um espírito crítico, em uma cultura que passa por grandes transformações, com discussões sobre a questão do corpo, dos gêneros, das identidades nômades, do empoderamento, do feminismo…
Bruno explica a importância de tentar entender a força de espírito do tempo (Zeitgeist) da Moda, uma vez que este fenômeno tão complexo, não diz mais respeito, apenas, às roupas, mas a todas as instâncias e espaços da vida humana em sociedade, desde a política, a economia, a privatividade e as relações sociais, incluindo aí, as amorosas.
No decorrer da entrevista, Brunno, também nos concede referências bibliográficas, resultantes de anos de pesquisa, que trazem grandes nomes do “Pensamento da Moda”, assim como referências suscitas, às suas teorias, servindo de base, para quem quiser iniciar uma base teórica de Moda, desenvolvendo lastro para seu conhecimento.
1 – Moda e Filosofia
Denise Pitta: Qual a relação entre Moda e Filosofia?
Brunno Almeida Maia: A pergunta pode ser respondida de duas maneiras. A primeira é a compreensão da filosofia como ciência da origem, portanto, a busca, neste caso, da relação etimológica existente entre as palavras texto e tecido no grego e no latim. Quem nos indica esta curiosa aproximação é o filósofo Roland Barthes n´ O Prazer do Texto.
Como alargamento da razão, as palavras texere (latim) e huphaínō (grego arcaico), abrem múltiplos sentidos, significando tanto o costumeiro tecer no ofício das costureiras, o sentido narrativo de “tecer comentários sobre alguém”, ou, como aparecem na Ilíada e na Odisseia de Homero, ambas escritas por volta do século VIII a.C: “os deuses teceram algo…”. Ou seja, a palavra possuindo uma constelação de significados nos indica que no ato de tecer algo é narrado, e no ato de narrar, por seu turno, algo é tecido.
As moiras (em grego: Μοῖραι), na mitologia grega, eram as três irmãs que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos. Eram três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Durante o trabalho, as moiras fazem uso da Roda da Fortuna, que é o tear utilizado para se tecer os fios. As voltas da roda posicionam o fio do indivíduo em sua parte mais privilegiada (o topo) ou em sua parte menos desejável (o fundo), explicando-se assim os períodos de boa ou má sorte de todos. As três deusas decidiam o destino individual dos antigos gregos – Moda e Filosofia
A minha avó materna, que fora costureira em sua pequena cidade natal de São João do Oriente, em Minas Gerais, conta que durante as visitas de suas clientes ao seu atelier, para as provas de roupas, histórias – nem sempre as mais felizes – eram contadas ao redor da velha máquina de costura Singer.
Temos aí, portanto, um indicativo de aproximação com a tradição oral, a tradição material e a tradição afetiva. Foi inevitável, ao longo destes anos de pesquisa, relacionar esta questão com o declínio da narração no ocidente, especificamente com o texto O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, do Walter Benjamin, no qual, resumidamente, ele mostra que enquanto os antigos narradores contavam as histórias, que eram verdadeiros provérbios, parábolas e conselhos práticos para a vida, teciam, gravando nos corações e nos espíritos de quem as ouviam, toda uma tradição do saber-viver e saber-fazer.
Portanto, estamos na nascença da Filosofia, como sabedoria prática, como modo de vida. Ora, isto era possível por conta de uma percepção temporal, antes daquilo que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”, no qual a “distração atenta” e a contemplação eram possíveis. Era uma época, contrária a do capitalismo moderno, na qual o Tempo não se “contava”, para usar uma bela expressão do poeta Paul Valèry.
Na antiga tecnologia do tear, a trama representava a rememoração, ao passo que a urdidura era o esquecimento. Bela analogia, uma vez que a maior descoberta da psicologia moderna foi a de entender que a consciência não suporta apenas o constante lembrar, ela deve se ocupar, também, da arte do esquecimento.
Nietzsche nas Considerações Extemporâneas chama a atenção para a compreensão do esquecimento para a História, para se combater, em linhas muito gerais, aquilo que ele chamou de uma cultura do “ressentimento”. Lembremos, então, do estratagema de Penélope na Odisseia de Homero. Enquanto costurava a mortalha do velho Laertes, “ganhava” tempo para não desposar os pretendentes do palácio, e aguardava, com este gesto, o retorno do amado Ulisses à Ítaca.
O término do trabalho de Penélope coincide com a chegada de Ulisses, como se a narração estivesse consoante com o acontecimento. Este trabalho paciente, memorioso, de retomada de fôlego, de uma Penélope fazendo e desfazendo as linhas no tear, portanto do inacabado, é a “mais autentica forma de pensamento”.
No sentido metafórico, não foi Heródoto, mas uma “costureira”, Penélope, a primeira historiadora. Como leitura do presente – tarefa que se destina a questão filosófica desde o século XIX – temos várias questões políticas na relação exposta acima, principalmente se pensarmos, no declínio da narrativa – tal como Benjamin a compreendeu – e no “desaparecimento” das costureiras – como contadoras de histórias – dos bairros, vilas e pequenas cidades.
Penélope na Odisseia de Homero: enquanto costurava a mortalha do velho Laertes, “ganhava” tempo para não desposar os pretendentes do palácio, e aguardava, com este gesto, o retorno do amado Ulisses à Ítaca – Moda e Filosofia
No que diz respeito ao segundo ponto, trata-se de compreender o “caráter epistemológico* da Moda”, e para tal tarefa me apoio no método – de desvio! – benjaminiano, e no uso da Alegoria. A Origem do Drama Barroco Alemão – sua tese de livre docência – falou do século XIX desviando-se pelo o século XVII, pois, por este anacronismo, Benjamin combatia o historicismo e o método positivista ou cientificista da inteligibilidade, das leis que regem as identidades, excluindo as diferenças, e das deduções onde nada escapa.
Trata-se na Alegoria, que significa, grosseiramente, (allo, outro/ agorein, dizer), “dizer de outro modo”, de buscar, na expressão da Prof. Olgária Matos, não um desejo de evidência – como no cartesianismo – mas um desejo de vidência. O sujeito torna-se leitor e autor dos sinais históricos, pois a Alegoria possui como sentido profundo a arbitrariedade.
Pensar a roupa como Alegoria significa extrair o que ela contém, no seu aspecto fenomênico e transitório, de filosófico e eterno. Trata-se de pensar a relação da consciência com as coisas materiais, da memória que uma peça de roupa é capaz de suscitar involuntariamente, da sua própria dimensão ontológica de finitude, ou seja, de Morte.
No trabalho das Passagens, Benjamin propõe a dialética da Moda, pensando-a como desejo (vida: a tendência ainda não consumada) e como cadáver (morte: a tendência consumada). Neste sentido, estamos no campo da Filosofia, da extração, a partir do mundo dos fenômenos, da Ideia. A Morte, a condição de finitude das coisas e da existência humana, a passagem e a experiência do Tempo e da consciência dizem respeito, como sabemos, à Filosofia.
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Epistemologia – reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, esp. nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo; teoria do conhecimento.
Alegoria, que significa, grosseiramente, (allo, outro/ agorein, dizer), “dizer de outro modo”. Trata-se de pensar a relação da consciência com as coisas materiais, da memória que uma peça de roupa é capaz de suscitar involuntariamente – Moda e Filosofia
2 – Moda, Imagem e Narrativa
Denise Pitta: Qual a importância da narrativa na criação do novo na Moda? E sobre relações e diálogos para criação?
Brunno Almeida: Uma das mobilizações centrais da minha pesquisa é sobre a noção de narrativa no contemporâneo, a partir de um fenômeno que o Benjamin percebe na transição da vida em comunidade – até o século XIV -, e o surgimento da sociedade moderna, que se consolida com as revoluções Francesa e Industrial, e, sobretudo, com a Modernidade do século XIX. Segundo ele, a Modernidade se caracteriza, também, pelo declínio da narração.
O autor se refere ao modelo tradicional da narração oral, ligado à perpetuação dos laços afetivos, ao passado e ao sentimento de pertencimento religioso. A modernidade “rompe” com este modelo, por conta de algumas mudanças, como o modo de produção, que passa a ser o capitalismo moderno, a maneira como se encara o ato de morrer – não se morre mais em casa, mas nos hospitais –, o fortalecimento, no XIX, da informação jornalística, pontual, assertiva e que não permite interpretação pelo sujeito, e, o mais importante, penso eu, a ascensão do romance moderno burguês, maneira individualizada e solitária de narração.
No mesmo período, temos a consolidação da Moda, como fenômeno social, naquilo que o Gilles Lipovetsky no seu livro O Império do Efêmero – a moda e o seu destino nas sociedades modernas, caracteriza como a Moda de Cem Anos, ou seja, a Moda em seu sentido moderno, tal como a conhecemos, inaugurada pela Alta-Costura e por Charles Frederick Worth, e pelas identidades dadas por meio das classes sociais, das profissões e da divisão binária entre os gêneros.
Charles Frederick Worth criador da Alta-Costura
Tudo isto para afirmar que, consoante com o declínio da tradição oral, enquanto gênero narrativo, temos a ascensão da Moda, também ela uma nova forma narrativa no mundo moderno e contemporâneo. Se a tradição oral e o romance burguês se consolidam no uso da linguagem verbal, a Moda se utiliza, principalmente, da imagem, da linguagem não verbal.
Podemos deduzir que a Moda substituiu os laços de pertencimento no coletivo; Georg Simmel fala sobre isto em seu ensaio Filosofia da Moda, que antes, o pertencimento era privilégio da religião e da vida comunitária.
Temos com a Moda três maneiras “novas” na sociedade moderna para se pensar a questão da narrativa atualmente.
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A primeira, diz respeito à relação feita de tensões e interações do indivíduo com a sociedade, ou seja, a Moda impulsiona o desejo pela imitação (pertencimento e sociabilização), como pela distinção (não pertencimento e individualização). É a partir dessa dialética, enquanto pensamento da contradição, que a relação conflituosa entre individualidade, identidade e Moda deve ser pensada.
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O segundo ponto, está dado no próprio meio de expressão da Moda, as imagens. Na tradição racionalista filosófica, a imagem (o imago) sempre fora problemática, seja pela condenação dos moralistas cristãos do Cristianismo primitivo, como Tertuliano, seja por seu estatuto ontológico, ligado à aparência, ao sensível, portanto, ao mundo dos fenômenos múltiplos, diversos, díspares, à contradição.
A imagem, por definição, comporta uma concentração de energia, de intensidade, por isto, ao contrário do logos (discurso racional), ela, a imagem, permite múltiplas interpretações e sentidos, tal como a poesia. Pensar então, a partir daí, qual estrutura narrativa se tem com a imagem de Moda, seja de uma campanha, editorial, desfile, vitrine.
Costumo dizer que o trabalho de criação nesta área comporta duas correntes narrativas: a primeira nasce com o costureiro ou estilista, toda coleção é ficção, na medida em que lida com uma gramática própria, um cenário de ação, uma temporalidade – referência ao passado, culto do presente, ou predizer do futuro, como fez tão bem André Courrèges, e personagens de criação, como os de Alexandre Herchcovitch no início da sua carreira (A Morticia da Família Adams, a Pomba-Gira, a Caveira, a drag queen, etc).
O segundo momento narrativo, envolve o trabalho de concepção do stylist ou do vitrinista: o desfile, a campanha, o editorial e a vitrine recolocam a primeira narrativa numa segunda, mais próxima de uma relação de identificação com o público, é o chamado desejo, o Eros ou o sex appeal do inorgânico, como tão bem definiu Benjamin, no sentido que a roupa, a mercadoria, flerta com o consumidor.

Coleção Masculina do Inverno 2010 e camiseta com temática pomba-gira, ambos Alexandre Herchcovitch. Na primeira imagem, um situação conceitual da marca, na segunda o produto adaptado ao consumidor final – Moda e Filosofia
Ao comprar determinada peça de roupa, o indivíduo retira um elemento da sua totalidade narrativa, ou seja, retira-se a aura, enquanto encantamento e distanciamento daquela peça na relação com o olhar do voyeur – o consumidor. Cabe a ele, ao indivíduo, uma vez retirada a peça do seu contexto originário, devolvê-la, recriando-a num contexto narrativo pessoal e individual.
Problemática da questão: muitas vezes, devido a demanda do fast fashion e o aceleramento do tempo, ou de um empobrecimento psíquico do sujeito, reside uma incapacidade de se criar, num diálogo com o próprio corpo, uma nova narração. Penso que o consumismo deveria ser “repensado” por este caminho…
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O terceiro ponto é a temporalidade da Moda, e como toda estrutura narrativa – Paul Ricoeur nos mostrou muito bem – temos uma estrutura temporal. Qual é a estrutura temporal da Moda? Vivemos numa época em que a Moda não diz mais respeito, apenas, às roupas, mas a todas as instâncias e espaços da vida humana em sociedade, desde a política, a economia, a privatividade e as relações sociais, incluindo aí, as amorosas.