Como os hackers podem salvar a indústria da moda

Renata Horta, do Tropos Lab

Renata Horta, do Tropos Lab: hackeando comportamentos com o sonho de mudar o mundo.

Tenho praticamente “pregado” que precisamos de pessoas engajadas em mudar nossa realidade e que o Brasil tem capacidade, produção científica, boas ideias e, bons empreendedores para isso. Meu nome é Renata Horta, sou hacker de comportamento, sócio fundadora da academia de empreendedorismo e inovação Tropos Lab, e tenho um sonho: mudar o mundo.

Pode parecer ilusório para alguns, ambicioso para outros, mas para mim esta é uma realidade. Uma realidade que só pode se materializar se trabalharmos juntos, se usarmos nossa propriedade intelectual, se soubermos identificar bem os problemas e agir em cada um deles, com esforço, inteligência e dedicação. Precisamos dos nossos hackers para isso, e acredito que temos muitos deles espalhados pelo Brasil, os verdadeiros agentes das mudanças que queremos ver.  E quando utilizo o termo hacker não me refiro ao estereótipo do criminoso virtual que vai roubar sua senha e invadir seu computador. Refiro-me aos tantos profissionais capazes de usar criatividade, astúcia e eficiência para transpor desafios.

Moda vai além do senso comum, é muito mais que Fashion Week, muito mais que apenas algo que vestimos. Moda é comportamento, é consumo, é uma indústria que gera coisas maravilhosas e absurdas para o mundo.  Foi frente ao desafio de mudar o mundo que surgiu o Ideas 4 Change, um movimento para promover negócios que resolvam problemas latentes da sociedade. Nosso primeiro desafio? Mudar o mundo da moda! Nós já recebemos ideias de pessoas do Brasil inteiro, hackers empenhados em resolver problemas latentes e melhorar a vida de milhares de pessoas.

Estou feliz que estejamos aprendendo a nos posicionar, a idealizar, a sonhar juntos e a cocriar soluções de impacto. Nossa primeira seleção de ideias já nos encantou, e temos mais alguns poucos dias para receber ideias daqueles que se inspiraram com esse movimento em prol da moda brasileira. Quero deixar aqui um gostinho de como os hackers — e só eles — podem salvar a indústria da moda. É um combinado do que vi pelo mundo e das ideias daqueles que já contribuíram nesse processo coletivo!

COMO HACKEAR OS CUSTOS DA MODA

Ao comprar uma camiseta você provavelmente pensa que poderia pagar menos por ela. E poderia mesmo. A produção de moda no Brasil é uma das mais caras do mundo.

Para tornar a moda brasileira mais barata, precisamos antes de tudo nos organizar como setor. A criação de uma rede forte tal como a LVMH, maior conglomerado de produtos de luxo do mundo, nos mostra que é possível competir com a China ao valorizar a produção nacional. A união da inteligência e das capacidades das empresas nacionais torna possível a criação de pólos que trabalham juntos em prol da redução de custos, aumento da eficiência, posicionamento no cenário mundial, diminuição da carga tributária e do preço da moda tanto para os produtores quanto para os consumidores.

ideas4change

Precisamos utilizar tecnologia na organização interna das empresas. Em minha vivência como empreendedora, já presenciei enorme redução de custos de produção ao aplicarmos inovação de processos. Nossos hackers da programação nos mostraram que é possível criar soluções para melhor organizar as operações das empresas, automatizando certas tarefas manuais e utilizando conhecimento coletivo para aumentar a eficiência e reduzir os custos do processo de produção.

Com o aumento do consumo, a procura pelo algodão cresce cada vez mais, e a disponibilidade de água é cada vez menor. Uma camiseta de algodão consome 2 000 litros de água para ser produzida, o que é possível ser reduzido com iniciativas como Better Cotton Initiative que reduziu pela metade não só o uso de água, como também o uso de produtos químicos, e é claro, o preço! O Brasil é um dos maiores produtores e também consumidores de algodão do mundo. Tornar essa produção mais barata e mais sustentável pode diminuir muito os nossos custos com produção. É possível utilizar tecnologia na indústria, em maquinário mais eficiente, na produção de tecidos; e países que se destacam na vanguarda da produção de moda barata mundial estimulam a tecnologia aplicada a todas essas áreas.

COMO HACKEAR O DESPERDÍCIO

Assim como há poluição e desperdício de recursos na produção de algodão, isso repete em toda a cadeia de moda. A indústria de moda está entre as cinco que mais poluem e, de maneira geral, não é sustentável.

Os grandes parques tecnológicos geram resíduos que muitas vezes não são tratados devidamente, causando sérios impactos ambientais. Nossos hackers químicos conseguem criar processos químicos especialmente desenvolvidos para tratamento desses efluentes gerados pela indústria têxtil garantindo que essa contaminação não ocorra.

A moda brasileira utiliza prioritariamente fibras sintéticas e, quando utiliza fibras naturais, depende da importação destas a preços altíssimos. Que tal utilizarmos fibras naturais em substituição às sintéticas para não só diminuir os impactos ambientais, como também aumentar a durabilidade e o conforto das peças? Nossos hackers mostraram que é possível.

Mais um chamado do Ideas 4 Change: hack contra a poluição na indústria.

A criação de um ciclo de produção de sapatos sustentável, com a utilização de materiais renováveis, fabricados em impressora 3D, com descarte feito através de devolução à fábrica possibilitando assim que a reciclagem ocorra, resolve não só o problema do lixo gerado por essas empresas como diminui seus custos. Nossos hackers da Moda, de Têxtil, da Biologia, da Química, da Agronomia, das Engenharias, do Eco-Design conseguem nos ajudar a gastar menos água na cadeia de moda, a reaproveitar, a utilizar diferentes materiais na produção, a diminuir os impactos negativos e aumentar os positivos.

COMO HACKEAR O BIG DATA

O faturamento do comércio eletrônico brasileiro cresceu 24% em 2014, mas ainda está muito aquém do potencial de compra online do país. As transações via mobile devem crescer 60% em 2015, e o uso de smartphones já é uma tendência consolidada e pouco aproveitada pelo setor. O processo de compra ainda é pouco inteligente, pouco usual e não gera a segurança necessária em consumidores que não estão acostumados ao ambiente online. Em paralelo, dados sobre nosso comportamento de compra, o que desejamos, como escolhemos e quais informações buscamos estão sendo gerados o tempo todo. Rastrear e usar esses dados somente para repetir anúncios por meses na minha timeline, de um produto que eu já consumi, é um exemplo do mau uso do big data. Geramos uma quantidade de dados que ainda não conseguimos lidar e transformar em valores reais, seja para o empreendedor, seja para o consumidor.

Hackes do Brasil e do mundo inteiro mostram que há potencial de utilizarmos tecnologia para recomendarmos o tamanho ideal de determinada peça de roupa na hora da compra, diminuindo a insegurança e o retorno, que é possível fazer recomendações de compra que combinam hábitos dos usuários com dicas de tendências e estilo, recomendações de estilo com base no corpo e armário do usuário utilizando como veículo apenas seu celular. É possível utilizar tecnologia para criar um relacionamento e um ambiente de segurança, que aumenta as vendas e a fidelização dos consumidores. Nossos hackers matemáticos e programadores podem usar big data não só para melhorar essa relação marca-consumidor como também para auxiliar na tomada de decisões estratégicas da empresa, como preço, variedade, promoção e estoque.

QUAIS SÃO OS PRÓXIMOS PASSOS?

Estas são algumas ideias que me instigam, me apaixonam, e me fazem acreditar que somos capazes de melhorar a indústria de moda, nossa economia, nosso país, e por que não o mundo? Para isso precisamos de hackers como você e eu, capazes de usar da nossa capacidade intelectual na resolução de problemas.

Créditos da Matéria: Projeto Draft